Usando a metáfora do procurador da República que a riqueza desviada por Cabral é um “oceano” ainda pouco conhecido, eu diria que aquilo que foi descoberto até agora é apenas uma gota d’água deste “oceano”, onde o ex-governador “navegou com sua caravela e a de outros piratas” que saquearam os cofres do Estado do Rio de Janeiro. Entre esses “piratas”, além do grupo próximo a Cabral já identificado e uma parte presa, existem deputados estaduais e federais, empresários de vários setores, e não apenas empreiteiros, escritórios de advocacia, pessoas influentes de outros poderes, marqueteiros e agências de publicidade, e uma gama de espertos, ladrões de pequeno porte, que ao longo dos últimos 10 anos roubaram algo em torno de R$ 8 bilhões.

O que veio à tona até agora é fichinha. Mas esta semana, sem alarde, a força-tarefa da Lava Jato no Rio ouviu o depoimento de Arthur César de Meneses Soares Filho, o Rei Arthur, de longe o homem que com suas empresas irrigou com mais dinheiro o esquema de corrupção comandado por Cabral e Picciani.

Ainda não se sabe o teor do seu depoimento, mas para alguém que nos últimos 10 anos, entre as empresas do grupo Facility, que mudou de nome para Prol, recebeu dos cofres públicos mais de R$ 3 bilhões, certamente, se teve medo de ser preso, Arthur deve ter revelado mistérios com cifras que vão muito além dos US$ 100 milhões descobertos até agora.


Cabral não operava com um único doleiro, Álvaro Novis, nem muito menos com os irmãos Chebbar que o delataram no caso de Eike Batista. Aliás, nesse caso caiu mais um mito inventado por setores da imprensa que sempre foram generosos com Cabral. O dinheiro de Rodrigo Silveirinha, cuja mulher estava nomeada no cargo mais importante da ALERJ quando Cabral foi presidente, e cuja amizade remonta aos tempos em que os dois trabalharam juntos na Turisrio (empresa de turismo do Estado do Rio), no governo Moreira Franco, era realmente de Cabral. Sempre afirmei isso, mas como Silveirinha havia ocupado um cargo no governo Rosinha (indicado por Cabral) tentaram empurrar o propinoduto do Rio para cima de mim e dela. Silveirinha sempre foi homem ligado a Sérgio Cabral.

Voltando ao esquema da quadrilha de Cabral não será difícil mapeá-la, mas será trabalhoso. O passo mais importante é ir atrás dos representantes da Mossack Fonseca no Brasil. Aliás, é surpreendente que eles tenham sido presos numa operação em São Paulo e quando viram o tamanho da encrenca resolveram contornar a curva para seguir com a Lava Jato.

A Mossack Fonseca, cujo dono é um panamenho já citado neste blog, utiliza-se da legislação de seu país para fazer o que José Dirceu e Eduardo Paes fizeram. Simples como vamos explicar agora.

Pelas leis do Panamá qualquer cidadão natural daquele país e que lá tenha residência física pode abrir uma offshore ou outra modalidade de empresa sem precisar declarar a origem do dinheiro. Depois em um cartório do país é feita uma procuração passando o direito de movimentar as contas da empresa e todo o seu patrimônio para um beneficiário final, que na verdade é o verdadeiro dono da empresa. No Panamá não são poucos os jardineiros, guardadores de carro, cozinheiras, auxiliares de escritório que são donos de verdadeiras fortunas no papel, mas cujos proprietários reais são outras pessoas, como, aliás, mostrou bem reportagem da BBC de Londres quando da divulgação do escândalo Panamá Pappers, mostrando que haviam contas em nome do pai do ex-primeiro-ministro inglês, David Cameron, do falecido ditador líbio Muammar Kadhafi, do ex-ditador egípcio Hosni Mubarack, do todo-poderoso presidente da Rússia, Wladimir Putin, e até o ex-primeiro-ministro da Islândia que renunciou quando tudo veio à tona.

A sequência é quase sempre a mesma. O dinheiro sujo ganha a aparência de uma offshore legalizada com sede no Panamá, e dali são abertas outras empresas em países diferentes para dificultar o rastreamento do dinheiro. A Mossack Fonseca tem escritórios com representantes em 40 países. Agora dá para entendem por que Sérgio Cabral teve que fazer o dinheiro passear pela Panamá e depois espalhá-lo por outras contas no mundo.

Mas Sérgio Côrtes não teria feito o mesmo? Ele era um dos mais frequentes acompanhantes de Cabral pelas viagens pelo mundo, inclusive na mais famosa divulgada pelo nosso blog, a farra Paris. Seu irmão, Nelson Côrtes, é um especialista em lavanderia de dinheiro.

Não teria feito o mesmo George Ryan Sadalla, o Gê, que além de abrir uma factoring para esquentar dinheiro da Delta, do seu amigo Cavendish, através de outro doleiro, Adir Assad?

Não teria se utilizado de esquema semelhante Regis Fichtner, que acompanha Cabral desde o tempo da Assembleia Legislativa, um dos seus mais fiéis escudeiros?

Há também os que além de lavar dinheiro preferiram transformá-lo em patrimônio aparentemente legal com a compra de fazendas, embriões, mineradoras. Tudo com a aparência de normalidade, mas que não resiste a uma mínima investigação. Aliás, os deputados Jorge Picciani e Paulo Melo sabem disso. É por isso que precisam da proteção de seus colegas para não serem presos.

Na contabilidade dos integrantes da força-tarefa do Rio ainda não foi somado esse dinheiro todo que virou patrimônio, muito menos o esquema envolvendo outras empreiteiras. O que se sabe até agora é somente em relação à Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia.

E quando for homologada a delação premiada de Fernando Cavendish, o dono da Delta? Ele é disparado o maior parceiro de Cabral e Picciani há anos, inclusive em negócios com várias prefeituras do PMDB.

É surpreendente que a Odebrecht tenha conseguido produzir mais de 800 depoimentos, de 77 diretores, e a Delta até agora não tenha sua delação homologada. O que será que Cavendish tem que outros não têm? Alguma “eficiência” ou algum segredo guardado além de Calicute?

O Estado do Rio virou um balcão de negócios sob a gestão de Cabral e Pezão. Dos grandes aos pequenos negócios tudo gerava em torno de propina.

A expressão usada pelo procurador ao afirmar que o “oceano” de Cabral não está completamente desbravado é tão verdadeira quanto a de Shakespeare ao afirmar que “existem mais segredo entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”.

Cabral pode delatar alguém? Essa é a pergunta que se faz. Investigando a quadrilha há 10 anos posso garantir que sim, para cima e para baixo, afinal ele navegou por mares nunca dantes navegados, protegido pelo manto da impunidade, não queria ser apenas o “descobridor” do Brasil, queria ser o dono com direito a acompanhantes. Seus sócios maiores ou menores estão vivos, livres, alguns operando a pleno vapor em prefeituras, na ALERJ, na Câmara dos Deputados, no governo federal, no governo estadual e também dentro de instituições que se dizem representativas de segmentos da sociedade, mas que fecharam os olhos e se lambuzaram na farra do dinheiro público promovida por Sérgio Cabral e sua quadrilha.