O prefeito do Rio, Saturnino Braga (1988) e reprodução de página do Globo; abaixo Cabral e Pezão
O prefeito do Rio, Saturnino Braga (1988) e reprodução de página do Globo; abaixo Cabral e Pezão

Em 1988 a cidade do Rio de Janeiro faliu. O prefeito era Saturnino Braga. A falência não tinha nada a ver com corrupção, era incompetência mesmo. Millor Fernandes chegou a publicar uma frase que certamente entrou para a história do anedotário político brasileiro: “Saturnino Braga desmoralizou a honestidade”. Naquele tempo o prefeito andava de fusquinha. Ninguém duvidava da sua honra, o problema era a incapacidade dele e de sua equipe de gerir uma cidade do tamanho e complexidade do Rio de Janeiro.

Agora o Estado está falido, com o anúncio então que a última parcela do salário de janeiro será paga no dia 23 de março, só falta Pezão pendurar uma plaquinha na porta do Palácio Guanabara: “Estamos em liquidação. Queima de estoque para fechamento da loja”.

Se no primeiro caso todo mundo tinha certeza que o problema não era corrupção, no caso do estado todo mundo tem certeza que é. Se Saturnino Braga “desmoralizou a honestidade”, como disse Millor, Sérgio Cabral e Pezão elevaram a corrupção a um status nunca visto antes na história deste país. O Rio de Janeiro pode se envergonhar do troféu que Cabral lhe deu: o estado mais corrupto do país. O cinismo com que Cabral diz “acho que exagerei” ou a desfaçatez de Pezão ao afirmar que “não conhecia esse lado dele” fazem dessa tragédia fluminense quase que uma crônica do saudoso cronista de Stanislaw Ponte Preta. Depois de comprar com dinheiro de roubo, joias, diamantes, barras de ouro, lanchas, mansões e acumular uma fortuna que ultrapassa a casa do bilhão, Cabral foi preso e nem no presídio respeita a lei. Come picanha, estrogonofe, tem direito a entrar e sair da cela a hora que quer, recebe visitas a qualquer horário e ainda tem direito a sacos de gelo para relaxar do stress. Tudo isso na cara das autoridades.

Quem denunciou com fotos e relatos contundentes foi um preso, que até disse que a quadrilha de Cabral tem gente boa, quando sobra um pouco de feijoada dividem com os colegas de galeria. O secretário de Administração Penitenciária, que já foi comandante da PM de Cabral não vê nada, não sabe de nada. O Ministério Público, que é o fiscal da lei também diz que até agora não viu nada. Só quem viu foi o preso que deixou o presídio recentemente. Quando a sociedade chega a esse ponto onde quem tem que dizer o que é certo é quem está saindo da cadeia é porque a degradação moral chegou ao ápice.

Não há solução para a crise do Rio sem o afastamento do atual governador, integrante ativo da quadrilha presa em Bangu. Muitos outros também deveriam estar fazendo companhia a Cabral e Pezão em Bangu. Deputados, secretários, empresários, todos que participaram da farra do Rio, também deveriam estar lá. Não há como salvar o Rio mantendo o ralo da corrupção aberto.

Conseguiram juntar a incompetência que marcou a falência da Prefeitura do Rio em 1988 ao gosto pela depravação dos costumes e o amor pelo dinheiro alheio. O povo poderia repetir para Pezão o mesmo que ele disse em relação ao seu ex-chefe, ora preso, comendo estrogonofe e feijoada em Bangu: “A gente votou, mas não conhecia esse lado dele”.