O falecido todo-poderoso senador Antônio Carlos Magalhães foi o coronel que mandou na política baiana por décadas e teve grande influência na política nacional, aliás, como ministro das Comunicações do governo Sarney foi uma "mãe" para a Globo. Pelo seu jeito truculento de fazer política ficou conhecido como Toninho Malvadeza. Foi ele que comparou a aparência de Temer à de "mordomo de filme de terror".

Bem, não sei se Temer tem medo de filmes de terror, mas de fantasmas tem. Depois da confirmação na Presidência da República deixou o Paládio do Jaburu (residência oficial do vice-presidente) e foi morar no Palácio da Alvorada. Só aguentou uma semana. Dizia que ouvia fantasmas de noite. Chegou a chamar um padre especialista em exorcismos. Mas pelo jeito o padre fracassou, os fantasmas continuaram a atormentar a noite de Michel, Marcela e Michelzinho, segundo relato do presidente à Veja. Chegou a dizer que não sabia como Dilma conseguiu morar ali sozinha. Bem, Dilma tinha outros fantasmas para enfrentar que eram bem reais. Por isso Temer decidiu retornar para o Jaburu.

Foi no porão do Palácio do Jaburu que Temer recebeu Joesley Batista na calada de uma noite de março passado. Ali estava presente o fantasma da corrupção, mas com esse Temer não se preocupou, como dá para perceber pelo diálogo gravado. Joesley entrou pela garagem subterrânea, deu o nome de "Rodrigo" na guarita e as portas se abriram ao ouvir a senha, uma espécie de "Abre-te Sésamo" para acessar a caverna de Ali Babá. Joesley entrou, conversou, gravou e saiu como um fantasma.

Agora Temer e seus fiéis escudeiros, Eliseu Padilha e Moreira Franco (ambos investigados na Lava Jato), se encastelam no Palácio do Planalto, transformado em bunker para enfrentar outros fantasmas. Os de manto branco, dos filmes de terror, foram substituídos por capas pretas, do Supremo Tribunal Federal. Mas existe um fantasma maior assombrando o trio, que vem das ruas, se multiplica e grita ensurdecedoramente "Fora Temer". Temer, Padilha e Moreira tremem de medo de serem arrastados para o inferno dos vivos, por isso se agarram ao foro especial. Chamar o padre agora não vai resolver, até porque a CNBB tem se posicionado contra esse governo. Só se for para dar a "extrema unção" nesse governo que já "morreu" e nada o fará ressuscitar.

Em tempo: Michel Temer voltou a fazer um pronunciamento na televisão, menos de 48 horas depois do primeiro. Insiste em que vai continuar no cargo, que vai aprovar as reformas e tenta minimizar a gravação da sua conversa, chamando os irmãos Batista de bandidos. Sim, são bandidos. Sim, Temer tem razão quando diz que ganharam milhões comprando dólares antes da bomba delação atingir o mercado. Mas nada disso muda os fatos graves que Temer protagonizou, crimes de corrupção, obstrução de justiça e organização criminosa, segundo a PGR, que vão muito além da gravação. Nada disso muda as propinas documentadas pelos irmãos Batista. E Temer, por conveniência, omite que eles também ganharam milhões quando lhes passou a informação privilegiada de que a taxa Selic seria reduzida em 1% no dia seguinte.

Ressalto aqui uma contradição enorme entre o primeiro e o segundo pronunciamento de Temer. Na quinta, ele defendia rapidez nas investigações, dizia não ter nada a temer. Hoje anuncia que quer que o Supremo suspenda sua investigação, ou seja, não quer que nada seja investigado.

Temer não tem mais escapatória. Aliás, lembrem que Collor antes do impeachment também foi duas vezes à televisão garantir que não renunciaria. Renunciou algumas horas antes do julgamento final, mas não escapou do impeachment.