Advogado Sérgio Mazzillo; ao lado Carlos Arthur Nuzman no dia da prisão
Advogado Sérgio Mazzillo; ao lado Carlos Arthur Nuzman no dia da prisão

Quero esclarecer que não investigo jornalisticamente pessoas, mas sim fatos. Faço essa introdução porque vou tratar de um fato que envolve um escritório de advocacia do qual já fui cliente, mas que está envolvido até o pescoço – pelo levantamento que fiz – nas maracutaias do senhor Carlos Arthur Nuzman. O escritório de advocacia de Sérgio Mazzillo, H.B. Cavalcanti e Mazzillo Advogados tem no seu quadro de sócios Luiz Rodolfo da Assunção Ryff que, por indicação do dr. Sérgio Mazzillo foi colocado por Nuzman como diretor-jurídico da Rio 2016.

Ora, o referido escritório recebeu oficialmente mais de R$ 18 milhões por serviços prestados ao Comitê Organizador da Olimpíada Rio 2016. Soa no mínimo estranho que o diretor jurídico seja do escritório contratado para defender Nuzman como pessoa física, e Nuzman como pessoa jurídica da Rio 2016. Torna-se ainda mais estranho que Nuzman, presidente do Comitê Organizador da Olimpíada Rio 2016 ter informado, durante o período que esteve preso, que possui uma empresa de palestras, tentando justificar o rendimento auferido para ter o vertiginoso crescimento patrimonial descoberto pelas investigações. Ocorre que o endereço da tal empresa de palestras é o mesmo do escritório de advocacia do dr. Sérgio Mazzillo.

Nuzman, desde a década de 1970, quando assumiu a Confederação Brasileira de Vôlei, e ainda mais quando virou presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, em 1995, dedica tempo integral a essas atividades. Residindo numa mansão no Jardim Pernambuco, no Leblon, um dos metros quadrados mais caros do mundo, de onde vinham os recursos para manter todas as despesas e os bens que adquiriu nos últimos anos?

Somente entre 2007 e 2016 foram assinados entre o COB e o Ministério do Esporte, convênios de R$ 109.943.080,44. Dinheiro público do Tesouro. Incrível para um país que não tem dinheiro para a saúde. No mesmo período o patrimônio do dirigente subiu de R$ 2 milhões no ano de 2006 para R$ 3 milhões no ano seguinte; R$ 4 milhões entre 2012 e 2013; e ultrapassou R$ 9 milhões em 2015. Detalhe: o fato que chamou a atenção foi a aquisição de ações de uma companhia sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, conhecido paraíso fiscal, compradas por Nuzman no valor de R$ 3.871.490, ou seja, nos últimos 10 anos seu patrimônio cresceu 457%, sem indicação clara da origem do dinheiro.



Não menos estranho foi a escolha de Edson Menezes para a presidência em exercício do Comitê Olímpico Brasileiro, após a prisão de Nuzman. Menezes é o 1º vice-presidente do COB, ex-presidente do Banco Prosper, que foi liquidado por prejuízos e suspeitas de fraude. Na época da liquidação o Banco Central informou que “a liquidação do Banco Prosper é motivada por sucessivos prejuízos expondo seus credores a risco anormal, deficiência patrimonial, e o descumprimento de normas aplicáveis ao sistema financeiro”. Com mais de R$ 100 milhões a receber, os credores da Rio 2016 gostariam que a empresária Luiza Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, integrante do Comitê Organizador da Olimpíada, fosse a substituta de Nuzman, mas por interferência do advogado Sérgio Mazzillo foi escolhido Edson Menezes, que é cliente de seu escritório e seu amigo pessoal.

A exemplo de Eduardo Paes, Edson Menezes é dono da empresa Remo Investiments, uma off shore, aberta em 2013 no Panamá, pela Mossack Fonseca, o mesmo escritório que abriu off shores para Eduardo Cunha, José Dirceu, Jorge Zelada e Pedro Barusco (ex-Petrobras), entre outros. Aliás, o próprio dr. Sérgio Mazzillo teve seu nome divulgado na lista de brasileiros que têm dinheiro no exterior do escândalo conhecido como SwissLeaks.


O famoso terreno do campo de golfe da Olimpíada

Eduardo Paes, Carlos Arthur Nuzman e Pedro Paulo (à direita) na inauguração do campo de golfe da Olimpíada
Eduardo Paes, Carlos Arthur Nuzman e Pedro Paulo (à direita) na inauguração do campo de golfe da Olimpíada


Sérgio Mazzilo, além de advogar para a Rio 2016, passou a atuar profissionalmente para Pasquale Neto, que era o posseiro do terreno, dando-lhe orientação de como proceder. A neta de Pasquale é casada com Diogo Campos Medina Mayer, filha de Luiz Otávio Medina Mayer, sócio de um dos escritórios que Sérgio Mazzillo indicou para Carlos Arthur Nuzman, conforme matéria publicada pelo site do canal ESPN, em 18/02/2016. Luiz Otávio Medina Mayer foi contratado pela Rio 2016 por R$ 2,8 milhões. Mesmo questionado na justiça, Mazzillo se posicionou favoravelmente ao início das obras num terreno que está em reserva ambiental, e que estava inclusive penhorado.


Outro sócio de Mazzillo é nomeado Procurador Geral da ALERJ

Jorge Picciani
Jorge Picciani


Embora seja vedada pelo Estatuto da Advocacia a nomeação de sócios de escritórios de advocacia para ocupar cargos com poder de decisão em órgão públicos, o Diário Oficial do dia 6 de maio de 2010 traz a nomeação de Hariman Antônio Dias de Araújo para exercer cargo em comissão de Procurador Geral (SE) junto à Procuradoria Geral da ALERJ. O ato é assinado pelo presidente da ALERJ, Jorge Picciani. Portanto é uma flagrante ilegalidade. Hariman passou a defender os interesses da família Picciani, que já era cliente do escritório de Sérgio Mazzillo, agora como Procurador Geral da ALERJ. Foi nessa esteira que o deputado Jorge Picciani e seus filhos adquiriram de um morto, o senhor Joaquim Caravelas, a ações da Mineradora Tamoio, que forneceu brita para 90% das obras realizadas pelas empresas que trabalharam na Rio 2016. Como isso foi possível?

O e-mail abaixo, enviado por Leonardo Gryner, braço-direito de Nuzman preso na Operação Unfair Play, é decisivo para as pretensões de Jorge Picciani. Como poderão ver na imagem, em um trecho ele determina que “todos os editais de compra, todos os contratos a serem assinados pela Rio 2016 deverão ser previamente aprovados pelo senhor Sérgio Mazzillo”



Com dois sócios atuando em pontos estratégicos, um no Jurídico da Rio 2016, e outro na Procuradoria Geral da ALERJ, além do seu escritório ser oficialmente contratado pelo Comitê Organizador da Olimpíada, com polpudos honorários, Sérgio Mazzilo, Nuzman e Picciani controlaram os principais negócios e esquemas da Olimpíada. Muitos!


Um presente de Paes de R$ 200 milhões

Eduardo Paes, Carlos Arthur Nuzman e Arthur Repsold (presidente da GL Events)
Eduardo Paes, Carlos Arthur Nuzman e Arthur Repsold (presidente da GL Events)


Eduardo Paes entregou o pavilhão 6 do Riocentro, palco do Boxe Olímpico e do Vôlei Paralímpico a GL Events, cujo sócio no Brasil chama-se Arthur Repsold. No dia da entrega, o prefeito disse no seu discurso que a empresa faria os investimentos necessários para as Olimpíadas, e em troca o município renovaria a renovação que a empresa GL Events detém no Riocentro e da Arena da Barra por mais 30 anos.

Além de R$ 51 milhões da construção do pavilhão 6, a GL Events teria que investir R$ 12 milhões na arena olímpica, além de mais R$ 10 milhões em outras obras, como por exemplo, reforma da iluminação, melhoria na acústica, entre outras. Tudo muito bonito não fosse a triangulação entre o Comitê Rio 2016, a Prefeitura do Rio (gestão Paes) e a GL Events. Simples de entender.

O Comitê Rio 2016 deixou de ter os gastos previstos que foram assumidos pela GL Eventos, mas em compensação assinou com a mesma empresa contratos que somam R$ 200 milhões entre 2011 e 2016. Foram 23 contratos com 4 empresas do grupo GL Events, e mais 12 aditivos. As empresas dividiram os contratos da seguinte maneira: onze com a FAGGA, um com a Top Gourmet, um com o hotel Grand Mercure Riocentro, e dez com a própria GL Events, ou seja, a empresa gastou R$ 76 milhões e recebeu R$ 200 milhões do Comitê Rio 2016, que por sua vez recebeu esses recursos repassados pela Prefeitura do Rio.

Essa história ainda vai levar muita gente para a cadeia.