Outro dia, encontrei um amigo jornalista e começamos a conversar sobre política. De repente, surge o nome de Garotinho. A expressão dele foi muito engraçada.

-“Você conhece bem ele? Eita sujeito complicado! Adora uma briga...”

Expliquei a ele que acompanho a trajetória de Garotinho desde Campos, quando começou no rádio e, de fato, é uma figura polêmica mas que, analisando suas brigas, divergências políticas e outras situações , em 99% dos casos ele tinha razão.

Meu amigo então me questionou: - "Como assim, o cara briga com todo mundo e tem sempre razão?”

Disse a ele que os setores que se opuseram a Garotinho ao longo dos anos são sempre os mesmos. Em Campos, sua cidade natal, eram contra o Garotinho a mídia, o judiciário e uma elite que ainda guarda preconceitos da época em que Campos foi um polo importante da escravidão no Brasil. Por outo lado, Garotinho sempre teve o apoio dos trabalhadores, donas de casa, pessoas do povo e, pelo fato de ser um radialista, falava direto com as massas, criando aí um outro problema com os políticos que queriam controlá-lo. Mas a facilidade de se comunicar direto com o eleitor sempre o colocou do lado dos mais pobres.

E prossegui dizendo: - "Veja, no Rio, é a mesma coisa. Quem é contra o Garotinho? A Globo, a justiça, setores do judiciário, as elites econômicas, os grupos ligados a setores que exploram o trabalhador, como empresas de ônibus e grandes corporações.”

Mas ele insistia. - "Não é possível. Ele fala demais e às vezes fala o que não precisa falar.”

Calmamente pedi a ele: - "Me dê um exemplo de algo que ele fale demais.”

Ele me disse: - "Briga com a CBF, briga com a Globo, briga com um monte de deputados estaduais e federais, brigou com Sérgio Cabral, com Pezão, com Picciani, com Paulo Melo... Briga com muita gente!”

Eu então lhe fiz uma pergunta que foi o marco divisor de nossa conversa. - "Nas brigas em que ele está ou esteve envolvido ele está do lado certo ou do lado errado?” E completei: “- A questão não é falar, é saber se o que está falando é verdade ou não.”

Meu amigo começou a balançar em relação a Garotinho mas ainda resistia. - "Mas é muito demagogo, é populista. Fica com essa história de Restaurante Popular, Cheque Cidadão, achando que isso vai resolver a vida das pessoas.”

Mais uma vez argumentei: - "Olha, ele e Rosinha fizeram a Universidade da Zona Oeste, o Centro de Ensino à Distância, multiplicaram por dez o número de alunos da FAETEC, fizeram as estradas mais importantes do Estado, modernizaram todas as delegacias através do programa Delegacia Legal, fizeram um monte de coisas, não me lembro de tudo. Mas tenho certeza que nunca atrasaram o salário dos funcionários.

Mas meu amigo não dava o braço a torcer. -"Ele é complicado.”

Então perguntei a ele: - "O que é complicado?”

- “Sei lá. Um cara que você não pode controlar, meio imprevisível.”

E eu perguntei a ele: - Mas um político que não se deixa controlar pelo sistema é bom ou ruim?”

- “Mas ele é complicado...”

- “Você pode me explicar o que é complicado? Eu não estou conseguindo te entender.”

Meu amigo então foi mais claro: - "Complicado é o seguinte, ele vive dizendo muito coisa que precisa ser dita mas não pode ser dita aí ficam arrumando um monte de confusão pra ele.”

- “Vamos fazer um pequeno teste pra eu entender a sua definição de complicado. O que ele falou de Sérgio Cabral, Picciani e outras pessoas do PMDB do Rio é mentira ou verdade?”

- E ele respondeu: - "Não, isso é verdade!”

- “O que ele fala da Globo é mentira ou verdade?”

- "A Globo sempre foi manipuladora. Isso é verdade."

- “E a justiça ultimamente tem cometido mais injustiças do que justiças.”

- "É verdade. Isso sempre foi assim. Mas não é de hoje."

- “Bem, eu teria mais uma série de colocações mas estou entendendo que para você complicado é o cara que fala a verdade.”

- "Não, assim você está me ofendendo..."

- “Não, estou apenas repetindo o que você disse.”

- "Tá vendo como o cara é complicado? A gente não consegue nem concluir uma conversa sobre ele. É melhor parar por aqui. Daqui a pouco nós vamos estar brigando e não foi pra isso que a gente veio aqui, foi pra tomar um chopinho."

- “Quem puxou conversa foi você...”

- "Pois é. De repente, tem certas coisas na vida que é melhor a gente fingir que não vê. Vamos brindar aqui que é mais interessante!"

- “Vamos brindar a quê?”

- "Ao meu salário de novembro que o Pezão acabou de pagar."

- “Tá vendo? O Complicado avisou também.”

- “Poxa, não enche o saco... Vamos brindar a qualquer coisa.”

- “Já que você quer brindar a qualquer coisa eu proponho a você que a gente faça um brinde ao legado olímpico.”

- “Você tá de brincadeira, né? Quer dar uma de Garotinho? Não tem legado nenhum, só dívida! Quer saber? Vamos fazer um brinde ao Complicado.”

- “Agora é você que quer me sacanear, né?”

- “Não. É porque, na verdade, eu nunca parei pra pensar sobre certas coisas. Talvez a política é que seja complicada e as pessoas prefiram políticos que falem o que elas querem ouvir, e não o que precisam."

- “É, vamos deixar pra lá.”

E virando pro garçom, pede: - "Me traz mais um chopinho aí! Mas traz o pequeno, o Garotinho!”


Enviado por Eduardo Travassos de Souza