Ontem recebi muitas ligações após a publicação no nosso blog da matéria “Está faltando gente em Bangu”. Como disse na matéria faço denúncias e investigações contra o grupo de Cabral / Pezão há quase 10 anos. Acho que a matéria de hoje abrindo o blog vai dar tanto reboliço quanto a de ontem. Quando me afastei de Cabral, antes mesmo da sua posse no primeiro mandato, percebi por algumas escolhas que suas intenções não eram boas. Dali pra frente seguiu-se a série de confusões entre mim e ele, onde invariavelmente eu fui colocado pela mídia como bandido e ele como mocinho. Agora a população está conhecendo pelo menos parte dos graves crimes que Cabral cometeu junto com um grupo de maus empresários, políticos, e conforme disse ontem, membros de outros poderes. Se a força-tarefa que apura a organização criminosa liderada por Cabral for levar as investigações adiante vai faltar cela em Bangu.


A bancada do ouro



O escândalo de lavagem de dinheiro usando a compra de joias que aparenta ser somente de Cabral e Adriana Ancelmo envolve mais gente. Como mostramos há anos atrás houve o famoso assalto na casa de Pezão, onde o ladrão levou 14 caixas de joias. Essa investigação nunca terminou. Há vários anos falei no blog a respeito dos incentivos fiscais dados a joalherias que renderam também milhões em joias a um grupo de deputados estaduais e secretários de Cabral. Ao contrário do que andam dizendo por aí não são apenas seis deputados estaduais que vão ter seus nomes em breve revelados pela joalheria H. Stern. São 15 deputados e ex-deputados estaduais sendo que só um deles pagou em dinheiro mais R$ 2,5 milhões na aquisição de joias. Conhecida como a “bancada do ouro” envolve também deputados federais (atuais e ex), além de outros secretários de Cabral ainda não citados na operação Calicute.


Só Carolina (Beltrame ) não viu...

José Mariano Beltrame não viu nada
José Mariano Beltrame não viu nada


Sérgio Cabral, que já tinha um DNA criminoso desde a Assembleia Legislativa onde costumava fazer os seus acertos dentro do banheiro, não criou um grupo político no Rio, mas uma facção criminosa, tamanha extensão e o poder dos envolvidos. Outro dia me lembrei dos lindos versos de Chico Buarque, da música Carolina, “o tempo passou na janela e só Carolina não viu” em relação a José Mariano Beltrame, o homem do setor de Inteligência da Polícia Federal e que comandou a Segurança Pública do Rio. Viu o roubo passar na sua frente, e por omissão ou participação não tomou providência alguma. Aliás, mostrei que ele morava em Ipanema, no apartamento de um dos “laranjas” de Cabral, Paulo Magalhães Pinto. O documento que entreguei à Procuradoria Geral da República contém fotos da filha de Beltrame passeando na lancha Manhathan, que segundo os investigadores da Calicute, pertence a Sérgio Cabral e custou R$ 5,3 milhões.

Mas o que levou o Estado à falência, além da corrupção, foi o esquema concebido intelectualmente por Regis Fichtner através do pagamento de dívidas através de precatórios, que envolve mais de uma dezena de bancas de advocacia do Rio de Janeiro, nomes famosos, capitaneados pelo escritório de Adriana Ancelmo.


Ricardo Teixeira e Carlos Arthur Nuzman com Sérgio Cabral
Ricardo Teixeira e Carlos Arthur Nuzman com Sérgio Cabral


Não podem passar despercebidas as maracutaias envolvendo Cabral e Pezão com Ricardo Teixeira e com Carlos Arthur Nuzman. Teixeira, que tentei investigar como deputado federal, teve a proteção da bancada da bola e acabou se salvando. Enviei os documentos para o MP da Suíça, que de lá pediu a colaboração da promotoria dos Estados Unidos, que meteu em cana José Maria Marin e está no encalço de Teixeira, Marco Polo Del Nero e outros ladrões que saquearam a CBF. No caso de Nuzman, ele vem recebendo há muito tempo a proteção de um escritório de advocacia que diz ter grande influência com promotores do Rio. Vamos ver o que ocorrerá com esses dois porque isso vai puxar o fio que levará dezenas de outros malfeitores juntos.


O Comando Cabral

Rei Arthur, Sérgio Côrtes e Regis Fichtner; abaixo Mauricinho Cabral (irmão do ex-governador) comemorando com Carlos Emanuel Miranda, o Avestruz; e Wilson Carlos
Rei Arthur, Sérgio Côrtes e Regis Fichtner; abaixo Mauricinho Cabral (irmão do ex-governador) comemorando com Carlos Emanuel Miranda, o Avestruz; e Wilson Carlos

Com certeza quando construiu Bangu 8, presídio destinado a criminosos de nível superior, Cabral já tivesse a dimensão da extensão da facção criminosa que ele comandava no Estado do Rio.

Impressionante é a diversidade de setores e empresas envolvidas na roubalheira de Cabral. Como afirmei dias atrás aqui no blog, as empreiteiras talvez representem menos de 20% do dinheiro ilícito de Cabral e sua facção. O setor de prestação de serviços, os incentivos fiscais, os precatórios, as desapropriações, os investimentos feitos em publicidade e assessoria de imprensa, entre outras atividades, representam mais de 80% do dinheiro sujo adquirido pela organização criminosa de Cabral. Aliás, transformaram a até então modestíssima FSB, de Chiquinho Brandão, numa das maiores empresas de assessoria do país, quem dava as cartas lá era o irmão de Cabral, Mauricinho Cabral, que poucos dias antes de Carlos Emanuel Miranda, o Avestruz ser preso, tomou chope com ele para comemorar alguma coisa muito importante. Dizem que a quadrilha teria alcançado o primeiro bilhão de dólares e a notícia precisava ser transmitida ao chefe.

Não sou advogado de empreiteiras, mas colocar a culpa só nelas, como vem ocorrendo até agora no caso Cabral, com a Carioca e Andrade Gutierrez, que são as investigadas na Operação Calicute, é uma profunda incoerência. O império de corrupção desenvolvido por Cabral inclui empresas situadas em paraísos fiscais, que venderam remédios para o Estado, empresas de informática que participaram do Mensalão de Arruda no Distrito Federal, o ex-bilionário Eike Batista, várias empresas de factoring, várias organizações sociais que compõem a sociedade carioca, entre elas o Viva Rico, contratadas para gerir o sistema de saúde estadual e transformá-lo num caos, esquemas para fabricação de UPAs e UPPs de lata, aluguéis de ar refrigerado para escolas, o bilionário contrato de aluguel das viaturas da polícia, enfim, os procuradores têm em mãos aquilo que as crianças, através de um joguinho antigo costumavam brincar: o caminho que leva ao tesouro. Mas para fazê-lo terão que esbarrar nas longas mãos de Cabral que foram estendidas até outros setores do Estado, e não somente o Executivo. Acredito na boa intenção daqueles que após o início da Lava Jato passaram a investigar Cabral. Repito: estou fazendo isso há quase 10 anos. Espero que investiguem todos e que não escolham alguns como carne fresca para matar a fome dos leões e serem entregues às feras, e depois tudo continuar como dantes no quartel de Abrantes, deixando de fora a maior parte dos que cometeram atos criminosos contra o Estado.


Em tempo: Aproveito para esclarecer um fato. Não tenho contato de nenhuma espécie, nem política, pessoal com o senhor Luiz Rogério Magalhães há exatos 10 anos. De fato fui muito amigo dele até rompermos nossa amizade de infância em Campos, quando em meados de 2006 tivemos uma áspera discussão, que inclusive resultou na retirada de seu nome da lista de candidatos a deputado federal que o meu grupo político apoiaria. Digo isso porque toda vez que apresentam na mídia os diálogos envolvendo Luiz Rogério e Wagner Jordão, dizem que ele foi meu secretário e de Rosinha. Foi sim, inclusive em Campos, quando fui prefeito em 1989. Seu pai, Magalhães foi um dos homens de esquerda mais sérios que conheci. Numa certa ocasião, o DOPS quis prender o professor Luiz Magalhães (Magalha) dentro do Liceu de Humanidades de Campos. Na condição de diretor do Grêmio Estudantil, eu e outros colegas impedimos a entrada da polícia da ditadura na escola. O pai era um homem idealista, honestíssimo. Não posso dizer o mesmo do filho...


Em tempo 2: Um amigo que me visitou no meu escritório esta semana, me disse que eu deveria tomar cuidado com a minha segurança. Segundo ele corro o risco de morte. Perguntei a ele: “Pedir segurança a quem cara pálida? A Justiça do Rio tem um presidente que ao tomar posse anunciou como seu primeiro ato que vai me processar. Seu irmão, deputado federal, disse em Brasília a minha filha que a família Zveiter é inimiga dos Garotinhos. A polícia do Estado era comandada até poucos dias por José Mariano Beltrame, que além de estar me processando por eu ter denunciado negócios seus no sul do país, não conseguiu ver nada do que aconteceu debaixo do seu nariz no estado. Como poderia me dar proteção? As longas mãos de Cabral, como disse, se estendem por outros setores que cruzam os braços para não defender quem se levanta contra o ex-governador e sua gangue. Atualmente vivemos uma crise nas instituições, embora dentro delas existam pessoas de bem, que não se curvam ao indesejável amor ao dinheiro.