Por Luis Filipe Melo - Moderador
Quem acompanha o blog há algum tempo sabe que eu moro na Vila da Penha perto de Vicente de Carvalho, da minha janela, embora a uma certa distância, vejo o Morro do Juramento. E só para os posicionar estou a pouco mais de um quilômetro da Vila Cruzeiro, posso dizer que resido no front, sou quase um correspondente de guerra. Fico impressionado com o descaso e a omissão das autoridades policiais diante de uma guerra que vem sendo travada pelo menos há 6 meses e que já matou dezenas de pessoas.
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| Reprodução de O Dia online, deste sábado às 13h31m |
Não há um morador aqui da área que não saiba que a quadrilha que domina o Morro da Serrinha (divisa de Vaz Lobo com Madureira), da facção ADA (Amigos dos Amigos), tenta a todo custo tomar o Juramento (Comando Vermelho). Os tiroteios são quase que diários e a polícia sempre diz a mesma coisa que informou hoje ao Dia online: "Não sabia o que estava acontecendo".
Quem lê os jornais não fica sabendo nem da metade das ocorrências. Incontáveis casos de mortes nos tiroteios, quase todos bandidos, jamais foram noticiados. Virou rotina até de dia as pessoas saírem correndo da estação do metrô de Vicente de Carvalho em meio ao som de tiros.
Vou lhes dar um exemplo de um fato gravíssimo que ocorreu no fim-de-semana passado, de sábado para domingo, e que não saiu uma linha nos jornais.
Bandidos da Serrinha entraram no Juramento e se travou um intenso tiroteio. Três granadas foram arremessadas e duas casas ficaram parcialmente destruídas, por sorte os moradores, inclusive crianças, estavam nos fundos para se proteger das balas e não foram atingidos. Quem quiser pode checar com os moradores.
Moradores de Morro do Juramento e até mesmo do bairro de Vicente de Carvalho estão proibidos de frequentar as imediações da Serrinha e vice-versa. Ônibus que passam pela Avenida Ministro Edgar Romero em frente aos acessos à Serrinha estão sendo parados de madrugada por bandos armados que exigem que os passageiros digam onde moram. Se identificam algum morador do Juramento é agredido e ameaçado mesmo que seja um humilde trabalhador. É para fazer terror.
O que acho mais incrível é que o setor de Inteligência da Secretaria de Segurança ainda não tenha detectado a questão estratégica que está por trás dessa guerra pelo controle do Morro do Juramento: a construção da via expressa Transcarioca. A nova via que ligará a Barra ao Aeroporto contorna o morro e a estação do metrô de Vicente de Carvalho será o ponto de integração entre os meios de transporte. Logo por ali passará a circular mais uma multidão de dezenas de milhares de pessoas. Para quem não conhece, a estação do metrô fica de frente para o Juramento, apenas a três quadras. Ou seja, para o negócio do tráfico é uma área cobiçada devido à localização estratégica pela facilidade de acesso e saída dos viciados. Para piorar o quadro os batalhões da Polícia Militar da região (9º e 41º) tiveram o efetivo reduzido por causa das UPPs, não se vê mais viaturas nas ruas principalmente à noite.
Estamos abandonados e nem podemos contar com a imprensa que não noticia, nem cobra providências. Os políticos que se elegem com os votos da nossa região, os clãs familiares, fingem que não vêem o nosso drama, afinal são aliados de Cabral e eleição só daqui a dois anos. Só vemos e ouvimos a mídia falar em pacificação, redução da violência, mas nós da Vila da Penha, Vila Kosmos, Vicente de Carvalho, Vaz Lobo, Madureira, Irajá somos reféns de uma guerra. É a área da cidade onde atualmente se registram mais roubos de carros. Resta ficar em casa à noite em pleno sábado, pedindo a Deus que nos proteja de uma bala perdida, estou ocupando o tempo escrevendo para o blog, e pedir uma pizza, isso se não morar muito perto do Juramento, porque nas proximidades ninguém faz mais entregas.
À imprensa que dá tanto destaque aos conflitos internacionais não custa lembrar que "o Mali é aqui" e fica na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde a guerra se prolonga há mais de 6 meses sem que a maioria da população tome conhecimento. E infelizmente o secretário Beltrame está mais preocupado em manter viva a fantasia da pacificação. Como não adianta gritar por socorro porque quem deveria nos socorrer finge que não sabe de nada, o jeito é dizer: "Que Deus nos proteja!".